teorias

* A ciência e as visões de mundo *

O que pode ser considerado ciência e o que não pode? Partindo de uma perspectiva moderna, muitos argumentam que se o referido “conhecimento” não foi produzido através de métodos empíricos, sistemáticos, passíveis de replicação e que forneçam leis gerais, não pode ser considerado científico. Mas aqui cabe a reflexão: esse critério tão rígido e dicotômico pode ser usado para distinguir corretamente entre o que tem validade científica e o que não tem? Deve-se levar em consideração que essa “fronteira” foi pensada levando em consideração eventos de caráter físico das ciências exatas. De um outro ponto de vista especialmente importante para a psicologia, deixa-se de ter tal condição sine qua non. Seguidores de determinados pressupostos teóricos levam em consideração subjetividades e diferenças específicas em suas observações. Tratam-se então de pressupostos epistemológicos, de abordagens diferentes, partindo de diferentes visões de mundo que direcionam suas produções de conhecimento.

Especificamente na área da psicologia, Altman e Rogoff definem quatro grandes visões de mundo: a perspectiva dos traços, a interacionista, a organísmica e a transacional.

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Na perspectiva dos traços, estuda-se o indivíduo, sua mente e seus processos cognitivos, independentemente de seus contextos físicos e históricos.  São levadas em consideração basicamente suas características de personalidade. Essa perspectiva pressupõe a não-mudança do indivíduo. Os observadores são entendidos como externos e não-participantes do evento em si. Por ignorar os efeitos de contexto, essa visão acaba limitando-se.

Talvez a mais difundida perspectiva na psicologia de maneira geral e norteadora boa parte de suas teorias seja a interacionista. Na busca por leis gerais, esse pressuposto epistemológico foca os processos cognitivos, fatores contextuais e settings ambientais (esse último de bastante interesse para a psicologia ambiental). Há uma linearidade causal e o tempo não é visto como integrante do fenômeno (interação dos elementos com o sujeito). Busca-se ainda encontrar uma previsibilidade. A perspectiva interacionista talvez seja a que melhor se enquadra naquela definição mais rígida de ciência empírica.

organísmica por sua vez já apresenta uma mudança mais radical em relação às duas anteriores. Abandonando características positivistas e assumindo um maior dinamismo, essa abordagem tem como unidade de análise o sistema integrado. Esse sistema como um todo é considerado mais do que a soma de suas partes e há uma interação complexa e recíproca entre as variáveis. Sob a visão sistêmica, as mudanças são temporais e no sentido de alcançar um equilíbrio, cessando ao atingir este fim. Apesar do caráter teleológico, as relações do sistema são entendidas como multidirecionais. Assume-se que há somente algumas regras universais.
A visão transacional vai ainda mais além, assumindo um acentuado caráter relativista (podendo inclusive ser comparada à física quântica) e holístico. Nessa perspectiva, as relações são bastante mutáveis, e substitui-se uma compreensão de “elementos em interação” pela de um todo indivisível (no caso da psicologia ambiental, temos a díade pessoa-ambiente). Daniel viva-la-relativity-600x450O tempo e o próprio observador são vistos como partes integrantes do evento, não sendo possível observar elementos separadamente. Assim sendo, torna-se impossível evitar interferência do observador no fenômeno. É possível descrever e analisar eventos não-replicáveis, criar leis que só se aplicariam a um caso específico, o que vai totalmente contra a visão de ciência adotada por exemplo pela perspectiva interacionista. O foco dessa visão de mundo passa a ser a forma específica, e não mais uma previsibilidade ou a busca por um padrão geral. Essa visão é interessante justamente por apresentar conceitos tão diferentes do que normalmente estamos acostumados no “fazer ciência”. No entanto, sua complexidade e necessidade de uma nova visão de mundo torna a análise de seus estudos extremamente difíceis.

As perspectivas propostas por Altman e Rogoff não tem uma gradação entre “a melhor” e a “pior”, cada uma tendo suas características específicas. Logicamente, essas visões se sobrepõem, não são totalmente isoladas. O foco de relatividade – considerando cada evento como único – e a unidade indivisível da visão transacional me pareceram especialmente interessantes à psicologia ambiental em função da multidisciplinaridade e integração dessa área de conhecimento com outras. No entanto, a dificuldade de análise pode ser um problema sério. Pode-se mesclar então suas características com as da interacionista, mais sistemática e de metodologia menos complexa e ampla. Não é minha intenção julgar como mais ou menos válida nenhuma das quatro visões de mundo propostas. Essa é a minha interpretação e análise primária levando em consideração o que foi discutido em sala de aula. E você, o que acha?

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O Daniel pensa assim. E você? Participe!

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2 pensamentos sobre “* A ciência e as visões de mundo *

  1. Tomando-se como ponto de partida a “visão de mundo transacional”, na qual o simples fato de existir um observador já altera o ambiente, e que qualquer coisa pode influenciar outra de forma relevante a aleatória. Neste vídeo vemos um adulto se comunicando com um bebê. Porém, o adulto utiliza uma linguagem confusa e sem significados pré-estabelecidos, para se assemelhar aos sons emitidos pelo bebê.É interessante perceber como essa simples brincadeira do adulto influência todo o comportamento da criança.

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