Brasília

* A nova capital *

Foi em um tempo onde a prosperidade e o progresso se davam como metas, onde o governo necessitava de uma nova capital, por motivos que talvez perpassassem a simplicidade de edificações e ruas de um novo sítio, pois aquela simples ideia não era algo de poucos anos naquele país. Muitos viram queda do império; outros a construção de um Estado Novo, e uma república mais adiante, onde a ideia de uma nova capital apenas mantinha-se firme, mas simplesmente ideal.

De uma visão onírica a, talvez, um ambicioso plano de defesa, no planalto central daquele país deveria ser erguido o novo centro do poder, baseado nos mais inusitados planos de um projetista audacioso.  De fato, “Plano”, foi como ficou conhecido o projeto em forma de avião que margeava um, até então suposto, lago artificial. – E como alguns riram deste ultimo detalhe. Um solo tão poroso como o do cerrado não conseguiria, em hipótese alguma, abrigar um lago artificial.

“Quanto mais linhas telefônicas e elétricas” – diziam estes.  Estavam errados.

Dos cantos mais remotos do país, a força proletária reuniu-se na empreitada rumo ao “nada”, repleto pelo cerrado. De um vazio, tomado por nada mais do que a simples força da natureza, estradas foram abertas em meio ao simples trajeto dos carros a trafegar. Das mãos e traçados de um mesmo projetista, o marco da cruz foi delimitado, um encontro entre aqueles que seriam os eixos da cidade, de norte a sul, leste a oeste. Daí, então, surgiu aquele que, mais tarde, tornar-se-ia lendário por sua longevidade; o arquiteto cujos traçados curvilíneos e não usuais dariam alma a cidade do futuro, planejada e arquitetada como centro de um poder, onde as pessoas poderiam desfrutar do “leite e do mel” vistos outrora em sonho.

Foram erguidas estruturas monumentais. Edificações precisamente colocadas em lugares que seguiam o plano. Centro, ministérios, a grande praça que ficou conhecida por abrigar os “três poderes” na forma de magníficas construções de linha e curva esbranquiçada. A torre vista ao longe, erguendo-se aos céus em um dos pontos mais altos, deixando àquele que ousasse tocar seu mirante a possibilidade da visão opulenta que se daria dali adiante.

Dormitórios viraram cidades. Os “novos bandeirantes” criaram seu núcleo. Muitos daqueles cujo suor, e muitas vezes o sangue, tocaram a terra, criaram seu local nos arredores. Aos poucos, o “plano” mudava suas cores, desde uma simples quadra a mais, até a criação de setores, ruas e novos prédios.

Adaptações à obra original, os habitantes multiplicavam-se, sem nunca esquecer os parques verdes e das copas altas das árvores, as quais margeavam os caminhos e ruelas com a sombra necessária aos dias quentes. As rodovias e ruas não mais eram vazias, mas sim repletas por veículos, cuja tamanha distância existente entre os vários locais deveriam cobrir. As pessoas, habitantes agora das orlas mais afastadas ao lago, pediam por pontes, tracejadas por aquele arquiteto lendário, como a gota a refletir sobre a superfície daquele lago; pediam, um pouco antes, por mudanças no ideal, pois o centro da cidade e suas pretensões nunca deixaram esta categoria. Comércios setorizados, tomados por bares, lojas, ou até mesmo farmácias. A vida no “plano” parecia não tão planejada, mas sim, adaptada.  O funcionamento daquela mais simples estrutura havia tomado vida própria, sem esquecer, porém, do paisagista dono dos jardins mais belos a decorar os novos monumentos curvilíneos que surgiriam vez ou outra.

Das adaptações, o “plano”, para muitos, se tornava cada dia mais perfeito. Da mistura de povos e sotaques, do ali e do acolá, vindos das partes mais remotas do mundo, o conceito de “cidade grande” era apenas um detalhe, pois todos sabiam que ali havia “três pessoas”.  – E todos eles sabiam aguentar muito bem a seca que tornava aquele lugar um deserto, periodicamente.

Cinquenta anos depois, o horizonte talvez revele o futuro, com os novos monstruosos arranha-céus a surgirem, cercando pouco a pouco com sua redoma cinzenta o pequeno patrimônio deixado pelas lendas e sonhos com sua própria vida, a se reproduzir e adaptar vagarosamente. Porém, todos que tocarem aquele solo poderão sentir a brisa que vem do lago; poderão maravilhar-se com os jardins e tudo aquilo que é verde. Tomarão altas velocidades e desafiarão as leis a cada quilometro de vias infinitamente retas e espaçadas quando postos detrás de um volante, assim como poderão pedalar em um dos maiores parques da região.  Saberão das histórias, dos contos e viradas da música que ali surgiu, e terão a oportunidade de perder-se em rodovias e acessos em trevo, construídas em um sistema cartesiano de números e siglas, as quais são faladas como um idioma local.

Quando lendas finalmente alcançam a imortalidade, tornando-se ideias na forma de traços esboçados na paisagem, em meio ao cerrado a ilha de concreto se deita sobre seu mar, aquele que pode ser visto por qualquer habitante, em qualquer lugar, a qualquer momento; aquele que é dono da enorme gama de matizes e colorações, fazendo inveja ao mais dedicado Monet quando o céu alcança a maior das perfeições, abraçando o patrimônio da humanidade, o plano adaptado, o desejo onírico e o plano de defesa, tudo aquilo que é expresso com singularidade naquele lugar, escrito e descrito em páginas reais e virtuais por aqueles que lá vivem.

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O André pensa assim. E você? Participe!

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