Brasília

* Capital da Utopia e da Esperança *

A idéia de uma capital no interior do país já vinha de longa data, era corroborada pela própria constituição e havia inclusive projeções de onde deveria ser construída. No entanto, coube a Juscelino Kubitschek a execução da façanha em seu mandato na presidência do Brasil (1956-1961).

Sem dúvidas seria uma tarefa árdua. Mas se bem sucedida, a empreitada seria uma genial jogada de marketing de JK. Afinal, Brasília seria uma cidade planejada, criada a partir do nada, no meio do nada. Os críticos mais ferrenhos do presidente afirmavam “é tão longe, que não chegarão nem luz nem telefone”. Uma vez assumido tal compromisso pelo presidente, foi aberto um concurso de projetos para a nova capital. O plano piloto apresentado pelo arquiteto Lúcio Costa, foi o vencedor.

Daniel projeto lucio costaO projeto tinha aspectos muito interessantes, com ideias modernas expressas nas escalas do plano urbanístico (monumental/coletiva, residencial/doméstica/ cotidiana, gregária/concentrada e bucólica).

A cidade apresentava ao mesmo tempo um “caráter monumental” e um aspecto de praticidade e simplicidade, o que diferenciava a significativamente em relação à maneira como os outros inscritos no concurso concebiam a nova capital do país.

Contudo, chama a atenção o fato de a Brasília de 2012 apresentar diferenças significativas em relação ao concebido originalmente. Em parte, pode-se deduzir que isso se deve ao fato de Lúcio Costa ter assumido uma postura distante em relação à execução, dizendo que não pretendia “prosseguir no desenvolvimento da idéia apresentada, se não eventualmente, na qualidade de mero consultor”. Também não se podem ignorar erros na execução e planejamento, além de um caráter excessivamente idealizado e utópico na proposta. Isso é demonstrado pela suposição ingênua feita pelo governo de que os candangos que construiriam Brasília voltariam para suas terras-natais após o término da obra. Não houve também um plano de expansão. Vale lembrar que a previsão feita para a população de Brasília para 2000 foi superada em cerca de quatro vezes.

Também há questões de ordem prática. Nem sempre a maneira como o projetista espera que os espaços sejam utilizados pelas pessoas estão em conformidade com o seu uso prático. A cidade prevista como cômoda, eficiente, acolhedora e íntima, acabou se caracterizando pelo convívio em espaços fechados e percebida muitas vezes como de pessoas distantes, frias e pouco comunicativas. O setor de diversões no centro da cidade, imaginado como pólo de socialização, convívio e lazer, tornou-se mero espaço de trânsito, marginalizado e a anos-luz do idealizado Piccadilly Circus/Times Square/Champs Elysées. Quanto ao tráfego de veículos, não era previsto a quantidade assustadora de automóveis que se tem hoje. Ironicamente, Lúcio Costa não poderia fazer uma previsão mais correta ao caracterizar o carro como “parte da família”. A falta de planejamento quanto aos órgãos governamentais que seriam transferidos do Rio de Janeiro para Brasília também fez com que fossem dispersos para outros pontos da cidade aqueles não comportados pelo espaço físico da Esplanada dos Ministérios.

Logicamente nem tudo deu errado. A previsão de que a cidade tornar-se-ia um foco de cultura concretizou-se (ao menos parcialmente) com o surgimento de bandas influentes na música nacional, como Legião Urbana. Aspectos físicos que deram certo incluem a ideia de espaço público de livre trânsito expressa pelos pilotis e que caracteriza “o uso livre do chão” pelos pedestres e o paisagismo com tanta vegetação que surpreende quem visita a cidade pela primeira vez.

Muitos aspectos da capital se desvirtuaram em relação ao planejado, seja logo após a construção ou com o uso ao longo do tempo. Tendo nascido e vivido minha vida inteira em Brasília, é um pouco frustrante comparar o que poderia ter sido com o que se tornou a cidade. Mas apesar de todos os desvios em relação à ideia original, ainda podemos considerá-la como um marco. Tanto é, que tem o título de Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO desde 1987. Devaneios à parte, cada cidade tem suas peculiaridades e a minha não deixa de proporcionar a seus habitantes uma alta qualidade de vida, especialmente se comparada a outras das maiores cidades do Brasil. Obviamente, houve ideias impraticáveis na concepção original, há aspectos em que poderia melhorar e há esperança de que melhorarão em um futuro nem tão distante.

Brasília, capital da utopia e da esperança.

Daniel brasília esperança

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O Daniel pensa assim. E você? Participe!

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3 pensamentos sobre “* Capital da Utopia e da Esperança *

  1. Acho que antes tenho que comentar que, como qualquer projeto, aquilo que é efetivamente construído ou consolidado, nunca é o que foi planejado! As pessoas ocupando um espaço pode ser imprevisível e um exemplo disso (de como agora é ocupado, e como no projeto não deveria ser) são os pilotis! No link: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2012/10/24/interna_cidadesdf,329725/governo-garante-tolerancia-zero-para-as-cercas-nos-pilotis-em-predios.shtml o Correio Braziliense relata a retirada de obstáculos nos pilotis pela Agefis. Interessante perceber o resultado da enquete feita pelo site: 64% dos internautas são contra a instalação de barreiras nos prédios do Plano Piloto e 36%, a favor. Sou totalmente contra barreiras que possam impossibilitar a passagem das pessoas. Pilotis é área pública, quando você compra um apartamento, você compra um apartamento, não a área pública!

  2. Dois vídeos que dá pra ver bem a diferença da cidade para a de 30 e 50 anos atrás. O primeiro foi filmado por um cineasta francês em 1964 e o segundo por uma família em 1983. Com esses vídeos fica bem evidente a grande e veloz mudança que a cidade passou para se tornar a Brasília que temos hoje.

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